Lula “SURT4” ao descobrir nova sanção aplicada por Trump contra seu ministr… Ler mais
A relação entre Brasil e Estados Unidos entrou em um novo e delicado capítulo nesta terça-feira (26), após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) confirmar que o governo norte-americano revogou o visto do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski. Durante uma reunião ministerial transmitida ao vivo de Brasília, Lula classificou a medida como “irresponsável” e declarou solidariedade ao aliado político. A decisão, segundo analistas, intensifica um cenário já marcado por atritos diplomáticos e econômicos entre os dois países, com impactos que podem se estender para além da esfera política.
O gesto de Washington foi interpretado pelo Planalto como um movimento hostil que atinge não apenas uma autoridade do Executivo, mas também a própria soberania brasileira. “Queria dizer ao companheiro Lewandowski a minha solidariedade e da solidariedade do governo a você por conta do gesto irresponsável dos Estados Unidos de cassar seu visto”, afirmou Lula durante o encontro. O episódio ocorre em meio a uma série de medidas semelhantes impostas por Washington contra autoridades brasileiras, principalmente ligadas ao Judiciário.
Não se trata de um caso isolado. No mês passado, o governo norte-americano, sob a gestão de Donald Trump, já havia suspendido o visto do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, que atualmente conduz um julgamento crucial envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro. A decisão foi acompanhada da aplicação da chamada “Lei Magnitsky”, um mecanismo jurídico que permite aos Estados Unidos sancionar estrangeiros acusados de violar direitos humanos ou de envolvimento em corrupção. Moraes teve bens e ativos bloqueados em território norte-americano, e outros ministros do STF também foram alvo de medidas semelhantes.
O endurecimento da postura dos Estados Unidos também se refletiu no campo econômico. Em agosto, Trump anunciou tarifas punitivas de 50% sobre diversos produtos brasileiros, sob a justificativa de que há uma “caça às bruxas” contra Bolsonaro. Para o governo norte-americano, o processo judicial contra o ex-presidente é visto como politicamente motivado, interpretação que contrasta com a narrativa oficial em Brasília, que sustenta a independência das instituições brasileiras. O impacto imediato dessas sanções é sentido no setor exportador, especialmente no agronegócio, que mantém forte dependência do mercado norte-americano.
Especialistas em relações internacionais avaliam que a tensão gerada pela revogação de vistos e imposição de sanções cria um ambiente de instabilidade diplomática inédito nas últimas décadas. De acordo com fontes da diplomacia, há preocupação de que o desgaste entre os dois governos comprometa negociações comerciais em andamento e afaste investimentos estrangeiros do Brasil. “Quando decisões jurídicas internas de um país começam a ser questionadas em outra jurisdição, abre-se um precedente perigoso que mina a confiança mútua”, explica um professor de direito internacional da Universidade de Brasília (UnB).
Enquanto isso, o futuro político de Jair Bolsonaro segue no centro do impasse. O ex-presidente encontra-se em prisão domiciliar preventiva, e seu julgamento deve ter início em 2 de setembro. Caso seja condenado, a pena pode ultrapassar 40 anos de prisão. Esse contexto acirra a percepção de interferência externa, uma vez que Trump se posiciona abertamente contra o que considera perseguição política a Bolsonaro, reforçando a narrativa de aliados do ex-presidente dentro e fora do Brasil.
Diante desse cenário, o governo Lula enfrenta um dilema estratégico: reagir com firmeza às ações norte-americanas sem comprometer as relações bilaterais em áreas de interesse comum, como segurança, meio ambiente e comércio. Fontes próximas ao Itamaraty afirmam que o Brasil prepara uma nota diplomática de protesto e estuda acionar organismos internacionais para contestar a aplicação extraterritorial da Lei Magnitsky. A escalada da crise, porém, ainda depende dos próximos desdobramentos do julgamento de Bolsonaro e da disposição de Washington em ampliar ou reavaliar suas sanções. O que já está claro é que a revogação do visto de Ricardo Lewandowski não é apenas um incidente isolado, mas parte de uma disputa maior que pode redefinir o rumo das relações Brasil-Estados Unidos nos próximos anos.
